domingo, 31 de janeiro de 2016

Precisamos falar sobre super-herois brasileiros



 Hoje teremos um tema polêmico! E importante, já que dia 30 de janeiro foi o dia do Quadrinho Nacional! Afinal, de um lado existe uma batalha continua de autores brasileiros tentando emplacar os seus super-heróis, com raros sucessos. Do outro, existe uma massa que abomina o gênero considerando-o não apenas inferior mas uma parte opressora da cultura norte -americana.Aqui falarei especialmente com base na minha experiênncia pessoal como consumidor de quadrinhos, comprador de sebos e frequentador de gibitecas.
          Começando, o que define um super-herói?
Desenho de um projeto pessoal de heróis jurássicos
         Se pensarmos no termo é basicamente aquele que se destaca na história para salvar algo importante seja sua família, seu país , um tesouro ou coisa do tipo, o tipo de personagem que existe na maioria dos gêneros literários, isso quando não é usado como simples sinônimo de protagonista de uma história.
        E o super-herói? Apesar do termo super ser recente e derivado do primeiro super-herói como o conhecemos hoje, o Superman , a ideia se aplica a todo herói cujas habilidades ultrapassam  o que conhecemos como humano. Os semi-deuses das inúmeras mitologias ou cavaleiros lendários que usavam um item mágico único, são exemplos totalmente compatíveis com o gênero de super-heróis ( tanto que Thor, o guerreiro-deus da mitologia nórdica faz parte dos Vingadores e a própria Mulher Maravilha é , basicamente, uma amazona grega , sem precisar de grandes mudanças nas bases dos personagens).
     Já a ideia de super-herói fantasiado como a conhecemos é mais moderna, do início do século 20, começando com os detetives mascarados como O Besouro Verde ou as roupas alienígenas usadas pelos heróis espaciais como Flash Gordon. Quem criou os grande intermediários foi o autor Lee Falk, com os heróis Fantasma e Mandrake, ambos usando uma fantasia realmente única e no limite entre a feitiçaria e a tecnologia ( o primeiro com a lenda do local de ser um espírito imortal com contatos secretos com as tribos africanas e o segundo reunindo toda a mitologia em torno dos
mágicos de palco).
Desenho do meu herói Jetro
      Então tivemos a criação do Super-Homem, reunindo todo apelo clássico dos heróis super-fortes da mitologia (como Hércules) com a ficção científica de seu tempo e usando um uniforme baseado nos homens fortes dos espetáculos circenses. O seu enorme sucesso resultou numa explosão de super-heróis que tentavam combinar o conceito com as mais diversas curiosidades da tecnologia e da mitologia a fim de terem seus próprios sucesso, que descrevi um pouco aqui: http://letraseaventura.blogspot.com/2015/08/polemicas-de-alan-moore.html
       Já no Japão temos uma origem um pouco diferente: Godzilla!  O seu sucesso criou uma onda de filmes de monstros gigantes que depois se ampliou para a criação de heróis capazes de combate-los, resultando no surgimento do Ultraman, o primeiro super-herói japonês a ser um mega-sucesso e resultar numa onda própria de super-aventuras.
        Mas, e o Brasil?
        Com o sucesso dos gibis Marvel e DC no Brasil somada a falta de acesso dos mesmos ( já que pouco material era publicado o Brasil nos anos 60 e 70),  tivemos artistas sendo contratados para criar histórias no mesmo estilo. Assim surgem o Raio Negro, o Homem-Lua , o Capitão Sete, o Vigilante rodoviário, entre outros. Além disso, como alguns dos heróis que faziam sucesso por aqui estavam em baixa nos EUA( resultando na baixa quantidade de produção das histórias destes), editoras brasileiras contratavam artistas para fazer histórias histórias próprias com estes personagens . Então temos material 100% nacional produzido de personagens como o Tocha-Human e os X-men!
            Essa era foi encerrada com os problemas administrativos internos de muitas das pequenas editoras de material nacional somada a altíssima produção americana nos anos 80.
Capa do encadernado atual dos Combo Cangers, o primeiro quadrinho on-line de sucesso no Brasil
             Tentativas de usar a influência japonesa também ocorreram como o maior sucesso ocorrendo nos anos 90. Com o estouro de seriados com Jaspion e Changeman a editoras publicaram várias histórias baseados no super-heróis japoneses, tudo produzido em território tupiniquim por grandes autores como Marcelo Cassaro ( o editor atual da Turma da Mônica Jovem) e Alexandre Nagado ( um dos maiores conhecedores atuais de cultura pop japonesa). Claro que com o fim da onda destes, como detalhei nesse link:  http://letraseaventura.blogspot.com/2014/06/tokusatus.html  , mais uma vez tivemos a material nacional restrito a poucas edições especiais e muito material caseiro.
           Essa situação só mudaria com a expansão da internet que permitira sucessos como os Combo Rangers e, atualmente, uma nova onda de autores busca seu sucesso através da plataforma Social Comics ou por seus blogs. como exemplifico aqui:http://letraseaventura.blogspot.com/2016/01/analise-dos-quadrinhos-da-draco.html
              Mas por que essa dificuldade de ter material nacional de sucesso se metade dos desenhistas de super-heróis americanos são brasileiros( essa você não sabia né?).
                Aqui darei um pouco das minhas opinião. Afinal, sempre cacei material nacional físico e on-line, tive minha fase devoradora de fanfics, metade do que comprava na Fest Comics era gibi nacional.
A história da ficção científica nacional
             Indo ao assunto, primeiramente existe um saudosismo meio excessivo em relação a fase "áurea" dos quadrinhos nacionais dos anos 70.  Li vários deles e são aventuras legais, curtas  e diretas com um visual bem interessante. Basicamente tem o mesmo modelo dos heróis Hanna Barbera como Homen-Pássaro e Space Ghost, que curiosamente também tiveram curta duração e tentativas fracassadas de retorno. Na minha opinião a falta total de desenvolvimento dos personagens e a superficialidade das histórias originais as tornam repetitivas rapidamente e as tentativas atuais de retorno apelam pra uma carga emocional exagerada que contrasta demais com o material original.
Minha revista de romance de super-heróis.
       Sou um artista incompreendido! Deveria ter uma reserva de mercado! É culpa dos reptilianos tentando dominar o mundo com suas mensagens subliminares! Essa mentalidade arcaica acaba atingindo muitos patrocinadores e produtores de conteúdo. No entanto, as editoras atuais como a Draco e a Crás  mostraram o quanto isso é bobagem ! Liderada por artistas bem novos e inteligentes ( sem os vícios da galera anterior) tem arrasado no mercado literário e de quadrinhos mostrando como o trio administração-marketing-qualidade tem que andar forte e junto pra conseguir seu lugar ao sol, especialmente num país em que burocracia e impostos são um tormento há 500 anos.
          O grande bum de literatura fantástica nacional que tem muita influência dos heróis dos anos 90 e 80 mostra o público enorme que existe (vide aqui http://letraseaventura.blogspot.com/2014/09/cemiterio-do-dragoes-legado-ranger.html). A novela Os Mutantes aproveitou a onda Heroes a ponto da Record comprar o seriado original só pra não ter problema de diretos autorais e eliminar concorrentes possíveis na TV aberta. O SBT está numa onda de remakes nacionais de novelas mexicanas, porém criou um spin-off chamado Patrulha Salvadora que é basicamente uma novela de super-heróis infantil cujos adultos vão amar as referência à cultura
pop e rolar de rir. Os seriados Marvel e DC proliferam loucamente na TV a Cabo enquanto os serviços de Streaming tem apresentado uma nova era de super-heróis japoneses. Não falta público e o gênero pode abordar qualquer tema. O negócio é parar de nos vermos como herdeiros de uma falsa era paradisíaca e assumirmos  o trabalho difícil e demorado de construirmos um futuro com nossas próprias mãos, apreendendo com um reflexão realmente profunda sobre nossa história e nossa cultura.